Tuesday, 8 October 2013



LIXO DO VENTO

sob o céu nasceram falhas onde derramavam o resto de tempo que sobrava do dia
no final da semana os trechos não preenchidos deixavam despencar folhas amarelas
nesses dias as nuvens caíam sob a cidade e destruíam as moradias
as palavras morriam cedo pois o tempo era mandado para o espaço

esqueceram de avisar aos habitantes de que o céu é uma casca
feito abóboda acima das nossas cabeças
e que as falhas não fecham nem curam
elas alimentam-se

do tempo




voltar para casa e apagar algumas linhas começar tudo de novo
nada mais funciona não enxergo que o céu apaga e brilha acende e queima
porque nada mais é possível
ou impossível 
passível de acreditar

esconda seus olhos
do torpor queimando
na janela
que bate e estronda
com o tempo

KAREN KOLTRANE E O CAOS

é preciso desentrouxar o corpo depois de uma longa viagem
é preciso descansar os olhos embaçados de olharem para as luzes cegantes do espaço

são manchas que não desaparecem, e karen koltrane ainda não lavou as malditas e sórdidas botas. 
coisas para se fazer nesta cidade, disse ela, além de embaralhar as ruas
riscar os mapas compostos de escassez pendurados nos prédios de concreto maciço
rir e entupir os vasos sanguíneos 

o quebra-cabeça que
desatrofia
descansa
desentrouxa
as peças perdidas
embaixo do guarda-roupa

ASCENSÃO DAS MÃOS MORTAS

LA TRISTE VERITÁ

os borrões começaram a se desbotar depois do terceiro ato
apertei meus botões e afiei os dedos para que nunca mais abrissem as cortinas

circulei pelo palco imundo, chutei as madeiras apodrecidas;
o que diabos eu fazia aqui?

INFINE, UN APELLO

toc, toc
ouvi passos seguidos dos meus
toc, plac, toc
sinfonia de barulho num teatro despedaçado
alguém agitou a poeira das cortinas
o pó esvoaçava pelos filetes de luz pálida

SALVATAGGIO DISILLUSO

um coração frio e mãos mortas apareceram no último ato
sintetizando o que borrou pelo palco
as primeiras palavras da peça


Sunday, 29 September 2013

poesia rotulada trêz mil quatrocentos e vinte, das não-escritas, das não-borradas, das não-jogadas-dentro-da-gaveta


acordei e as palavras estavam jogadas na mesa; não sabia qual delas eu usaria para o primeiro corte
corpo aberto faz escorrer dor
corpo aberto não tem voz

as cortinas brilhavam cintilantemente do mesmo jeito há trinta anos
trinta e cinco, não sei
perdi as agulhas, errei os pontos
a costura continuava a mesma

Friday, 27 September 2013

cooperate with the sky and carve into my skin all your tears
thick foliages run when i looked at the train's window
i saw you dressed with my favourite cottony coat

the last drop

then i went back to home walking and the wind cutted my skin
and from that day and on i knew
i knew my body was completely open
to feel
your pain